Cigarros da Disciplina

A vigilância constante, esse Big Brother burocrático que nunca tira férias, segue ditando quem cabe ou não na estante social. O ordenamento, tão limpinho e organizado quanto uma gaveta de meias de um sociopata neoliberal, nos convence de que exclusão é só “gestão eficiente de recursos humanos”. É tudo tão naturalizado que até Foucault, lá em Vigiar e Punir, pareceria um repórter cobrindo o trânsito: “E aqui vemos a disciplina, à esquerda, atropelando mais um desavisado”.

Como bons cidadãos adestrados, normalizamos opressões, cortes e qualquer outra tesoura epistêmica que mantenha a máquina funcionando sem reclamar — e se reclamar, vai para o arquivo morto (que nem existe).

Nessa perspectiva distorcida, os cigarros… digo, os documentos de arquivo — aqueles bastonetes de nicotina burocrática — também carregam um tempo próprio: o tempo do controle, da poeira institucional e da etiqueta “NÃO MEXER SEM AUTORIZAÇÃO SUPERIOR”. Eles podem reforçar exclusão, disciplinar até a sombra das pessoas, apagar memórias com mais eficiência do que um governo em ano eleitoral e ditar regras sociais como quem distribui panfleto tóxico na porta do metrô. Funcionam como instrumentos de poder que perpetuam hierarquias e silenciam sujeitos como se fossem notificação de aplicativo apagada antes de abrir.

Ao aplicar o olhar foucaultiano à arquivologia — essa ciência meio monástica — entendemos que o arquivo não é só técnica. Ele é um terreno político onde se faz vigilância simbólica em formato A4, com margem de 2,5 cm. Ali se mantém a ordem, ou ao menos a ilusão dela, como um guarda municipal do espírito, pronto para punir qualquer memória que tente atravessar fora da faixa.

Essa sequência fotográfica, portanto, cutuca as vísceras do sistema: mostra como produzir, arrumar e circular documentos é um jeito elegante de dizer “eu mando, você obedece — e está tudo registrado”. Revela as tensões entre memória, controle e resistência como se fossem um tripé instável de câmera analógica filmando o colapso da própria cidade.

Porque no fim, entre cinzeiros cheios e caixas-arquivo entupidas, o poder continua soprando fumaça na nossa cara. E a gente ainda agradece, achando que é incenso.

Proposta

Conceitos básicos


Nenhum comentário:

Postar um comentário