Proposta

A proposta ganha relevância ao aproximar o pensamento foucaultiano das práticas arquivísticas contemporâneas. Assim como os corpos analisados por Foucault são disciplinados, classificados e normalizados para atender às estruturas de poder, os documentos também passam por processos de ordenação que moldam sua existência social. Organizar, selecionar e descartar documentos não é apenas uma operação técnica: é um ato de controle sobre a memória coletiva, pois define o que será preservado, o que será silenciado e como determinadas narrativas se consolidam.

Nesse contexto, a fotografia conceitual com cigarros oferece uma tradução visual dessa dinâmica. Ela evidencia que o arquivo ultrapassa a função de mero espaço de preservação e se configura como instrumento político, atravessado por relações de vigilância, poder e produção de sentido. Essa leitura crítica permite que os estudantes compreendam que a Arquivologia envolve, além de procedimentos técnicos, reflexões sociais, históricas e filosóficas sobre a construção, o uso e a circulação dos documentos.

A escolha do preto e branco reforça essa abordagem ao destacar o caráter disciplinar e normativo presente tanto na teoria foucaultiana quanto nas práticas de organização documental. A ausência de cor simboliza a supressão da subjetividade — efeito típico do poder disciplinar que busca controlar corpos e documentos por meio da forma, da estrutura e da classificação. Quando a cor desaparece, o que permanece é aquilo que pode ser mensurado, enquadrado e administrado, tornando visíveis as tensões entre preservação, controle e memória.

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